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Olá Pessoal!

Esta entrevista foi concedida originalmente ao site Karateca.net, um fórum sobre Karate, em 19/07/2011, a pedido de um amigo do Prof. Ennio, o Prof. Pedro Campana Netto.

O coordenador do fórum abriu as perguntas aos seus membros, que posteriormente foram enviadas ao Prof. Ennio.

Os participantes são referidos neste texto como no fórum Karateca.net, ou seja, pelos seus pseudônimos.

Abaixo reproduzimos a entrevista fiel ao texto original exceto pela formatação, que adequamos para um artigo, e a correção de alguns erros de português.

Ante dúvidas e mais perguntas que surgiram após a publicação, o Prof. Ennio pediu que inserisse alguns esclarecimentos que denominei “Texto Adicionado a Fins de Esclarecimento”.

Caso queira ler a entrevista original acesse o link clicando aqui

Boa leitura.

 

Mark Salesall
Relações Públicas
Escola de Karate-Do Brasil

  

Texto Adicionado a Fins de Esclarecimentos

São Paulo, 1 de setembro de 2020.

Olá Srs. Leitores!

Ante as muitas dúvidas que surgiram ao longo do tempo, depois que a entrevista foi publicada, solicitei ao Prof. Ennio que esclarecesse melhor o que era o Shidoin-Geiko e os Kenshu-Sei.

Segue abaixo o seu depoimento.

O que era o Shidoin-Geiko e Kenshu-Sei?

Shidoin-Geiko significa Treino dos Instrutores.

Kenshu-Sei significa Trainee ou Estagiário.

Para quem não sabe, um Programa de Trainees não é um curso, é um programa de treinamento que uma empresa abre periodicamente com o objetivo de, após recrutar e selecionar candidatos, contratá-los, treinar e adequá-los à sua cultura e diferentes operações. Ao fim do programa, normalmente com duração de um a dois anos, estes profissionais são efetivados nas funções para as quais foram treinados ou demitidos conforme os resultados que obtiveram. Os candidatos também podem se desligar por livre vontade durante ou depois da conclusão do programa.

A NKK tinha um Programa de Trainees com o propósito de preparar Instrutores para trabalhar em sua sede e/ou designá-los para ministrar aulas e treinos em outras entidades que contratassem os serviços da NKK, como por exemplo, faculdades, escolas do ensino médio, e outras entidades.Esse programa iniciou-se por volta de 1957 e funcionava como qualquer Programa de Trainee, ou seja, as vagas periodicamente são abertas, há um recrutamento (indicações), uma seleção e os aprovados são contratados, ou seja, passam a ser empregados como Trainees.

Os Trainees trabalhavam em período integral em afazeres internos como burocracia, limpeza e atuar como Instrutores Assistentes nas aulas da matriz e/ou em outros lugares para aprender a ensinar. Também treinavam diariamente no Shidoin-Geiko, o Treino dos Instrutores.Portanto, o Shidoin-Geiko era parte de um todo, o Programa de Trainees.

Após dois anos, os Kenshu-Sei que tivessem um bom desempenho, eram promovidos a Instrutor ou, como na maioria dos casos, desligado ou se desligava da NKK.

O Shidoin-Geiko era aberto a japoneses e estrangeiros que quisessem participar sem ser contratados como funcionários, desde que qualificados após uma avaliação, e tinham que seguir todas as normas da NKK, como treinar todos os dias, ter bom desempenho e, eventualmente, eram recrutados para algumas tarefas, como limpeza, demonstrações, exames, etc.

O mesmo Programa foi implantado no Brasil em 1973 pelo representante da NKK na época, o Prof. Okuda. Uma das poucas diferenças com o Programa do Japão era que os Kenshu-Sei não eram contratados e tinham que pagar pelo aprendizado. Neste 1º e único Programa, formaram-se em 1974, somente 4 Instrutores, Antônio Gomes Martins, José Ricardo Ortiz D’Elia, Isokichi Okuyama e Ennio Vezzuli. Estes Instrutores continuaram no treinamento até cerca de meados de 1977, quando por falta de contingente foi encerrado.

 

Mark Salesall
Relações Públicas
Escola de Karate-Do do Brasil

 

1. Anúncio da Entrevista e Solicitação das Perguntas

Karateca.net: Entrevista com Sensei Ennio Vezzuli.

Olá pessoal!

Uma ótima notícia! O Ennio Vezzuli irá realizar uma entrevista conosco.

Segue o currículo do ícone:

  • Participou dos treinos de instrutores da Nihon Karate Kyokai no Brasil de 1973 a 1977;
  • Tornou-se instrutor pela JKA no Brasil em 1974;
  • Estagiou no Shidoin-Gueiko no Japão de 1977 a 1979;

Por favor, coloquem suas perguntas até o dia 14 de junho de 2011 neste tópico!

Para quem não conhece os termos em japonês aqui estão explicados:

  • Shidoin-Gueiko: treino de instrutores.
  • Kenshu-Sei: Estagiário (treinee) do Shidoin-Gueiko até formar-se Shidoin (Instrutor).

Abraços.

 

Renê
Coordenador do Forum Karateca.net.

 

2. Entrega das Respostas da Entrevista

Caro Pedro:

A demora em responder deve-se aos fatos terem ocorrido há muitos anos. Tive que buscá-los no fundo da memória, muitas coisas nunca contei para ninguém. Tive que consultar anotações e fotos da época.

Foi uma oportunidade de rever o passado, de refletir e reavaliar a experiência e a minha trajetória no Karate-Do. Me diverti muito e espero que a memória não me tenha traído.

No que tange a expressão de meus pensamentos sobre o Karate-Do e outros assuntos, embora convicto de minhas afirmações, em momento algum tenho a intenção de ser o dono da verdade, são somente a minha opinião.

Agradeço a oportunidade, um abraço e Oss!

 

São Paulo, 10 de julho de 2011

 

Ennio Vezzuli

 

3. A Entrevista

Perguntas de Caio D’Elia, Jr. Member

Tenho a recordação de um depoimento feito por meu pai (Prof. Ricardo D' Elia) anos atrás, quando conversávamos sobre Karate. Ele disse em referência ao período no qual ele e Ennio treinavam juntos: “...acredito que depois de anos de treino consegui me desenvolver como um Karate-Ka, mas o único verdadeiro Budo-Ka que conheci até hoje foi o Ennio, este sim tinha um espírito excepcional...”

Em cima deste relato pergunto: Sensei Ennio, o que na sua forma de encarar e viver o Karate pode ter gerado este tipo de sentimento, mesmo em pessoas muito próximas a você, como o Prof. Ricardo D' Elia, com quem treinou durante anos?

Oss

EVezzuli: Nossa!... Vindo do Ricardo é um elogio e tanto.

Fico muito surpreso. Realmente não sei o que pode ter causado tal percepção. Não me sinto nem próximo deste ideal. Espero alcançá-lo.

 

 1976-00-00-SP-SP-CampPaul-EnnioxRicardo-01-Redim4801976, São Paulo, SP - Campeonato Paulista, Final Ennio Vezzuli versus Ricardo D' Elia

 

Pergunta de Ulbricht, Full Member

Primeiramente quero dizer que sou um grande admirador do Sensei Ennio, e que é uma grande honra poder fazer uma pergunta a ele. E que acho um desperdício um Karate-Ka como ele não ser melhor aproveitado por nossos "dirigentes" no Karate brasileiro!

Sendo assim desejo saber como foi treinar no Japão durante tanto tempo? Quais as diferenças entre o Karate no Brasil e no Japão? E como ele vê o Karate hoje em dia?

Obrigado!!

Oss!!

EVezzuli: Foi uma experiência e tanto, e é difícil de descrever em poucas palavras. Como na entrevista há muitas perguntas semelhantes, vou estender as respostas um pouco além do seu escopo para tentar responder às tuas perguntas.

 

Pergunta de Shaolin do Norte, Hero Member

Sensei Ennio,

Na sua opinião, nós brasileiros hoje somos “autossuficientes” em Karate, onde um iniciante buscando aprender Karate, pode tornar-se um Karate-Ka tão bom quanto um japonês sem sair do Brasil como o senhor fez?

Oss.

EVezzuli: Não diria que somos autossuficientes. Acredito que ninguém é, nem o Japão. Hoje o Karate-Do é global e evoluiu e evolui de diferentes formas em diferentes localidades. Acredito no intercâmbio de conhecimento e experiências com qualquer país ou localidade que tenha um Karate-Do desenvolvido.Mas ao mesmo tempo, devemos deixar de nos comportar como uma “colônia” e buscar uma identidade própria (já deveríamos ter), um Karate-Do brasileiro sem ufanismo, mas acreditar que podemos. Não nos falta nem conhecimento, nem material humano.

Quanto a 2ª parte de tua pergunta, para iniciantes, hoje, há bons professores, mas o que me preocupa é o Karate-Do de alto nível, para alcançá-lo devemos unir os talentos e esforços isolados.

Como?... Lembrando-nos que os laços nacionais (Brasil) devem ser maiores que os laços de estilo ou escola, que Karate-Do é Karate-Do independentemente de grupos, estilos, federações e confederações. Com estas ou apesar destas, devemos agir: implantar treinamentos de alto nível, formar instrutores, disseminar o ensino e a prática do Karate-Do para a população em geral, preparar atletas, promover eventos (não só campeonatos) e promover intercâmbios.

O Karate-Do, o seu ensino e prática, a graduação, os eventos, etc., deve ser desvinculado da política, dos interesses e projetos pessoais de poder ou “corporativos”, sejam quais forem eles. O ensino e prática deve seguir um programa próprio, independente e contínuo seja lá quem quer que esteja no poder ou o assuma.

Caso não consigamos isso de forma oficial e mesmo que tudo o que consigamos seja uma iniciativa isolada ou particular, devemos estendê-la a todos que queiram praticar o Karate-Do e não limitá-la a mesquinhez dos nossos grupos. Daí surgirá a união e sinergia que resultará em mais crescimento e aperfeiçoamento do Karate-Do beneficiando mais e mais pessoas.

 

Perguntas de GUICOMES, Sr. Member

Sr. Ennio,

1ª Pergunta – Que tipo de luta acha que melhor desenvolve o Karate-Ka: com sundome; algo simples como luvas e proteção bocal ou com bogu?

EVezzuli: Qualquer que seja a regra não deve descaracterizar os princípios do Karate-Do: o espírito de luta, o respeito, o Kime-Waza (golpe decisivo) e o Sun-Dome (controle do golpe, preservação da integridade do lutador), etc.

Quanto aos tipos de competição que você aponta, acredito que um completa o outro, por exemplo: na competição sem protetores, com menor pontuação e de menor duração, pelo risco e “stress” envolvidos, determinam uma luta mais estratégica, os praticantes arriscam menos e calculam mais os riscos. Na competição com protetores, com pontuação maior e de maior duração, envolve menor risco e menor “stress” e por isso é mais dinâmica, arrisca-se mais tanto em quantidade e sequência de golpes quanto em golpes de elevado grau de dificuldade, desenvolvendo-se assim maior versatilidade.

2ª Pergunta – Já vi diversos relatos a respeito do senhor como sendo o mais forte Karate-Ka brasileiro. Você atribui este status a sua carga de treinamento físico da época ou seu espírito? Se espírito, acredita que é algo próprio ou forjado pelo tipo de treinamento que enfrentou?

EVezzuli: Não me reconheço na imagem descrita. Acredito em treinamento (seja ele físico ou mental) mais que em habilidades inatas. O Karate-Do (bem como a vida) nos dá muitas ferramentas e, mesmo que privados totalmente ou em parte de algumas, com treinamento, aperfeiçoando as que temos ou as que temos parcialmente, podemos superar nossas limitações.

3ª Pergunta – Quais suas técnicas e estratégias favoritas de luta?

EVezzuli: Faz 44 anos que treino e, tanto as técnicas quanto as estratégias e táticas, foram mudando ao longo destes anos.

 

Grato

Guilherme Comes

  

Perguntas de A. HIGINO, Hero Member

OSS, Ennio Vezzuli Sensei...

A seu ver, a que se deve a decadência do Karatê?

Outrora a Arte Marcial mais temida, hoje, ocupa uma singela posição de mera atividade lúdica...

EVezzuli:  Respondo esta pergunta na pergunta do “Golden Era”.

 

Perguntas de Nelson Junior, Newbie

Oss. Sensei Ennio:

É uma mais pessoal que técnica... gostaria de saber o que levou o Sr. a praticar o Karate quando mais jovem.

Obrigado.

EVezzuli: Eu gostava de lutar. As técnicas e o “poder” do Karate me fascinaram. Com a prática fui percebendo, pouco a pouco, os outros predicados do Karate-Do.

 

1970 00 00 SP SP 1oTornAmistOkinawaShor 02 Redim4801970, São Paulo, SP -  1o Torneio Amistoso Okinawa Shorin Ryu, Desconhecido versus Ennio Vezzuli

 

1969 00 00 Santos SP 01 Redim4801969, Praia das Vacas, Santos, SP - Ensaio Fotográfico, Ennio Vezzuli e o Prof. Taketoshi Kawamura

Perguntas de Golden Era, Jr. Member

Fazendo um trocadilho com meu “Nickname”.

Você pertenceu a “GOLDEN ERA” do Karate do Brasil.

Os atletas de hoje em dia não se comparam aos de sua época no quesito Espírito de Luta, são apenas “PLAYERS” de algo que se parece com Karate.Porque você acha que houve essa degradação total dos reais valores do Karate-Do?

EVezzuli: Conheço muitos Karate-Kas atuais com grande espírito de luta e outras qualidades que os caracterizam como excelentes, contudo, não é a maioria. A essência está se perdendo.

Um dos motivos é a falta de formação de Instrutores Profissionais que, além de dominarem todos os aspectos do Karate-Do, também sejam preparados para ensinar e treinar de forma sistematizada desde principiantes a atletas de alta performance. — Veja mais adiante o meu projeto para sanar esta deficiência.

Outro fator, a meu ver, é o excessivo apego as competições, o vencer a qualquer custo, desprezando e descaracterizando-se os princípios e os valores do Karate-Do: o aperfeiçoamento pessoal, a ética (o respeito, etc...), o espírito de luta, o Kime e o Sun-Dome. Pior ainda, estas competições influenciam, moldam e direcionam a prática nas academias, o que limita e distorce o verdadeiro Karate-Do.

Ressalto que não sou contra as competições, muito ao contrário. Eu mesmo fui competidor por muitos anos, técnico da seleção paulista e da seleção brasileira.

As competições são muito importantes para a divulgação e desenvolvimento do Karate-Do. Bem conduzidas, nelas temos a oportunidade de pôr a prova “nosso Karate” sob pressão (o que não ocorre na academia), lutamos com diferentes tipos de atletas e diferentes “Karates”, aprendemos novas estratégias e táticas, e até novos golpes, e mais importante, tiram-nos da acomodação. Mas as competições devem ser direcionadas para que reflitam o verdadeiro Karate-Do em toda sua amplitude e profundidade.

 

Perguntas de Bodhi, Newbie

Sensei Ennio,

1ª Pergunta – Os treinos de Karate, quando foram introduzidos no Brasil, eram muito violentos. O Sr. atribui essa característica a: falta de técnica, empolgação, compreensão errada, ensino errado, ou os treinos eram o correto e dentro da tradição NKK?

EVezzuli: Isto acontecia no passado por uma série de motivos, inclusive os que você cita, exceto pelo último: nunca foi um “moto” ou uma tradição da NKK, nem de qualquer organização séria de Karate-Do. O Karate-Do deve ser forte, eficiente e eficaz, mas digno e dignificante.

A violência não deve ser um meio ou meta em si. Coragem, Espírito de Luta, Bravura, não é não sentir medo, quem não sente medo não é normal, o medo é um mecanismo de defesa de, pelo que sei, todo ser vivo. Estas virtudes tão comentadas e almejadas no Budo, não consistem em buscar a violência, mas sim, enfrentá-la quando inevitável. Mesmo assim, nem sempre com mais violência.

Os professores devem adequar o treinamento ao tipo de público que procura a academia. Crianças, profissionais que dependem de sua aparência ou habilidades manuais no seu trabalho (executivos, modelos fotográficos, médicos, dentistas, marceneiros, etc...), ou seja, para sobreviver não podem se machucar. Deve-se formatar uma aula/treino em que possam obter os benefícios do Karate-Do com o mínimo de riscos. O Karate-Do tem as ferramentas para moldar este tipo de Aula/Treino.

Isso até por uma questão de interesse econômico-financeiro, pois sem alunos não há receita e sem receita não há futuro para o Karate-Do.Para aqueles que têm interesse em se aprofundar no Karate-Do deve-se ter um treinamento de alto nível em separado. Nestes treinos, assim como acontecia no passado, pela dedicação e entusiasmo dos participantes, pode e ocorrem acidentes, mas são acidentes e, quando ocorrem, devemos procurar saná-los.

Quem o sofre deve engolir o sangue e continuar a lutar encarando o acidente como um teste de desenvolvimento do Espírito de Luta e Controle dos Impulsos. Quem o causa, deve se desculpar pela falta de controle técnico e treinar para corrigir a falta de habilidade.Mas, atingir um colega propositalmente em uma luta, onde é previamente e tacitamente combinado o “Sun-Dome”, o controle do golpe, é altamente reprovável: é falta de controle emocional, deslealdade e covardia. Inadmissível para um verdadeiro “Karate-Ka”.

 

2ª Pergunta – O que o Sr. acha do grande número de repetições nos treinos de Karate quando pensamos em lesões por esforço repetitivo? Lesões de bacia, joelho, e coluna são relativamente comuns em praticantes de longa data do tradicional. Será possível treinar o tradicional a vida toda sem precisar de algum tipo de cirurgia, ou ter algum tipo de limitação?

EVezzuli: O nível de maestria, de virtuosismo, só se alcança com o treinamento, com a repetição. Isto serve para todas as atividades da vida. Esta prática tradicional foi comprovada recentemente por estudos científicos baseados no acompanhamento de inúmeras atividades humanas, entre elas a dos pianistas profissionais. A síntese destes estudos refere-se a 10.000 horas de prática para se alcançar o virtuosismo.

Os avanços científicos ocorridos nos últimos anos nos campos do treinamento desportivo, alimentação, fisioterapia, medicina e na psicologia, permitem minimizar os riscos e otimizar o treinamento para se obter melhores resultados sem se comprometer em demasia a saúde. Mas em se tratando da busca do virtuosismo, tanto na parte técnica quanto na formação do caráter, não há atalhos.

Muitos treinamentos no caso do Karate-Do, são treinamentos de superação, de desenvolvimento das faculdades não físicas tais como o espírito de esforço, o espírito de luta, a perseverança, dilatação dos próprios limites, controle sobre a vontade, e eu não conheço outra forma de desenvolvê-los a não ser com treinamentos intensos e sob pressão.

 

3ª Pergunta – Quem foi (ou foram) o maior Karate-Ka brasileiro em kumite? No RJ, o Ronaldo Carlos é uma lenda, o Sr. poderia comentar?

EVezzuli: Não sei dizer quem foi o melhor. Eu conheci muitos, entre eles, além do Ronaldo: Antônio Gomes Matins, Ricardo D´Elia, Carlos Alberto Galvão Rocha (Carlão), Paulo Góes, Ugo Arrigoni, Antônio Fernando Pinto, Juarez Alves Gomes (Jacaré), Djalma Caribé, ... depois vieram: Robson Maciel, Yohanes Carl Frieberg, José Carlos Gomes de Oliveira (Zeca), etc...

 

4ª Pergunta – Quais foram os treinos mais difíceis no Japão? Houve algum dia mais marcante?

EVezzuli: Por causa das circunstâncias pessoais, foram os que descrevo na resposta ao “Yama”, mais abaixo. 

 

1978 00 00 To Jap ShidoinGueikoEnnxYahara02 Redim4801978, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Jiu-Kumite antes (e/ou depois) do Shidoin-Geiko. Mikyo Yahara e Ennio Vezzuli

 

1978 00 00 To Jap ShidoinGueiko04 Redim1978, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Foto Pós Treino Shidoin-Geiko.
1a fileira, da Esquerda para a Direita: Visitante (Africa do Sul), Hiroshi Shirai (Itália), Visitante (Africa do Sul),
Visitante (Africa do Sul), Isaka, Yamamoto.
2a fileira: Imura, Kurasako, José Pacheco - Pete (Portugal), Tatetsu, Kaneko, Ennio Vezzuli (Brasil), Susuki/Katsumata, 
Lau (Visitante do México).
3a fileira: Naito (Itália), Osaka, Masahiko Tanaka, Kaneko, Abe (a 1a mulher a participar do Shidoin-Geiko), Isumi (Instrutor da Universidade Kokushi-Kan) e Fukami.

 

5ª Pergunta – O Sr. poderia comentar suas valiosas impressões sobre o Sensei Nakayama, Nishiyama, Asai, Mori, Yahara?

EVezzuli: O Prof. Nakayama deixou uma obra inestimável sobre o Karate-Do. Às segundas feiras, quando não estava viajando, ele dava a aula no “Shidoin-Gueiko”. Era uma aula muito técnica, muitas de suas explicações, só as compreendi após alguns anos.

 

1985-00-00-NKK-Tokyo-JP-RefiliaWUKO-Nakayama-Ennio-Redim4801985, Tóquio, Japão - Viagem para tratativas de Refiliação á WUKO (WKF). Pós Reunião na NKK, Prof. Masatoshi Nakayama e Ennio Vezzuli

 

O Prof. Nishiyama estava nos USA e, embora eu tenha sido apresentado a ele em uma comemoração da Komazawa Dai Gaku, a universidade do Prof. Oishi, onde treinei por alguns meses, não tive maior contato com ele e nunca o vi treinando.

Com Prof. Assai tive um contato quase diário no treino. No início de 1979, quando se preparava para substituir o Prof. Shoji como instrutor do “Shidoin-Gueiko”, começou a dar o treino em alguns dias da semana. Tinha um Karate único, caracterizado por golpes e deslocamento circular. Seu treino era baseado na prática destes golpes.

 

1985 00 00 NKK Tokyo JP RefiliaWUKO Ennio Asai Oishi Redim4801985, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Viagem para tratativas de Refiliação á WUKO (WKF). Pós Reunião na NKK, Ennio Vezzuli, Tetsuhiko Asai e Takeshi Oishi 

 

Com Prof. Mori tive pouco contato, pois morava e dava aula no interior do Japão e vinha cerca de 2 semanas antes do Campeonato Japonês para treinar. Era muito grande e forte. 

O Prof. Yahara, dos “Senpai”, foi o com quem mais tive contato. Como é sabido dono de uma incrível explosão e versatilidade. – Veja adiante mais comentários sobre ele.

 

6ª Pergunta – Apesar de tantos anos passados, me parece que o Karate brasileiro inicialmente foi influenciado por alguns Senseis que dedicaram a vida a essa arte marcial: Senseis Uriu, Y. Tanaka, Takeuchi, Okuda (quem mais?) O Sr. concorda com isso? O Sr. poderia comentar sobre cada um, especialmente a perspectiva que teve sobre esses mestres após sua experiência no Japão?

EVezzuli: Sem dúvida concordo. Por eles e por muitos outros, inclusive brasileiros. Só para lembrar de alguns: Harada, Akamine, M. Shinzato, Taketoshi Kawamura, Sagara, Higashino, Denilson Caribé, Lirton Monassa, Akyo Yokoyama, Michizo Buio, Koji Takamatsu, etc...

A minha estada no Japão não mudou a perspectiva que tinha deles: respeito e reconhecimento do seu trabalho.

 

7ª Pergunta – e por último: Qual foi a maior vitória que a prática do Karate lhe proporcionou na vida?

EVezzuli: Foram muitas, não sei especificar uma só. Cito algumas ao longo da entrevista. Espero que responda a tua pergunta.

 

Muito obrigado pela oportunidade. Espero não ter feito nenhuma pergunta inconveniente, nesse caso me desculpe antecipadamente. Meu pai competiu na década de 60, e tantas histórias ele tinha. Se não se escreve o tempo leva.

OSS!

Paulo.

 

Perguntas de Katashotokan, Hero Member

Oss!

1ª Pergunta – Frente à FPK como diretor técnico, e presidente, gostaria de saber qual ponto positivo e negativo o senhor citaria?

EVezzuli: Este é um julgamento que deve ser feito pelos filiados da época ou pelos que de alguma forma tenham sido afetados, bem ou mal, pela minha administração.

 

2ª Pergunta – “SATORI” Qual sua definição a respeito desse assunto na vida do Karate-Ka?

EVezzuli: Pelo pouco que sei, Satori, ou estado de iluminação, é um estágio mental/espiritual a ser alcançado pelos homens (ou seres). É pregado por várias religiões orientais tais como hinduísmo, budismo, etc.... O Karate-Do que conheço não se propõe a tal.

 

3ª Pergunta – No Karate-Do, no tripé (KKK Kihon, Kata, Kumite,) se o Senhor tivesse de escolher apenas um, qual seria?

EVezzuli: A metáfora do tripé refere-se ao fato que a falta de um deles desequilibra o que ele suporta, no caso, a prática do Karate-Do. Realmente acredito nisto e nenhum dos “pés” deve ser negligenciado. Isto posto, é certo que todos têm preferências, a minha sempre foi o Kumite.

 

Muito obrigado pela atenção, Oss!

 

Perguntas de Arknjo, Newbie

É com grande admiração ao Sensei Ennio, que dirijo as minhas perguntas.

1ª Pergunta – Diante da desmoralização atual do Karate o senhor acredita ser necessário uma mobilização para acabar com a picaretagem, ou seja uma mudança na lei para que haja um órgão oficial (JKA, CBK ou sei lá qual, se é que isto é possível) para fiscalizar as associações e academias no que tange a prática do Karate Budo e do Karate esportivo?

EVezzuli: Não creio que isto seja factível. Já foi tentado na minha gestão na FPK, mas esbarramos em empecilhos legais e políticos. O melhor é fazermos um Karate-Do de qualidade, que além do ensino e prática correta, concilie também as expectativas dos diferentes públicos interessados. Também devemos nos preocupar em divulgar o trabalho, assim forneceremos elementos de comparação o que, certamente, nos dará a preferência dos potenciais praticantes.

 

2ª Pergunta – Será o Lyoto Machida o grande salvador do Karate? Não deveriam as federações e organizações se esforçarem para criar mais Karate-Kas Budo-Kas, demonstrando assim a verdadeira força do Karate para retirar a nossa arte do limbo?

EVezzuli: Não acredito nisto. Veja a resposta abaixo.

 

3ª Pergunta – Qual a sua opinião sobre o Karate no MMA? Será este o futuro do Karate Budo?

EVezzuli: Eu também gosto de ver lutas de MMA, é meu instinto, mas acho que devemos controlar nossos instintos ancestrais e primitivos e as emoções destrutivas. Por uma questão de dignidade e até de interesse econômico-financeiro, devemos considerar as reflexões e pensamentos abaixo:Não acredito que o Karate-Do ou qualquer tipo de Budo se preste a shows e espetáculos de violência. Nossos objetivos são outros. Tratam-se de formar o corpo e o espírito (caráter, mente, etc.).

O poder do Karate-Do ou de qualquer outra forma de Budo só deve ser usado em casos extremos, como em defesa da própria vida, de outras pessoas e em causa da justiça.

Não são palavras minhas, são palavras do Prof. Nakayama que, por sua vez, repetiu palavras de antigos Karate-Kas e outros Budo-Kas. Tais afirmações encontram eco em todas as “artes marciais” (Budo). Mesmo antigamente, quando a conduta dos Samurais era regida pelas leis e pelo Bushi-Do, eles só podiam usar suas habilidades bélicas em defesa da população, e em favor da ordem e da justiça.

É por causa deste entendimento (filosofia) do Budo que predomina no Karate-Do que, felizmente, temos poucos ou quase nenhum representante nos MMAs.

Usar o poder destrutivo do Karate para machucar outras pessoas em troca de dinheiro ou fama me parece incorreto.

Também não acredito que seja uma forma saudável de propaganda. Se por um lado pode atrair o público afeito a competição, ou um público desejoso de violência ou candidatos a lutadores profissionais, talvez afaste a maioria que pode associar o Karate-Do à violência e a bravata.

Tendo assistido um torneio de MMA e visto a agressão e ferimentos causado pelo Karate-Do, qual mãe, em sã consciência, colocaria seu filho para “quebrar a cara” numa academia de Karate? Qual profissional que precise de suas habilidades físicas (ex.: destreza manual) ou de sua aparência (especialmente mulheres) para ganhar a vida, procuraria uma academia de Karate-Do ante a possibilidade de lesões conforme assistiu em um torneio de MMA?

Além de restringirmos os benefícios do Karate-Do a um público pequeno, o que prejudica a missão do Karate-Do, colocaríamos também em risco a sobrevivência das academias por causa da pequena receita gerada por este público limitado.

 

4ª Pergunta – Pit boys de Do-Gi mancham a arte ou simplesmente fazem propaganda gratuita assim como fizeram no Jiu-Jitsu, e ajudam o povo a lembrar que o Karate existe e funciona?

EVezzuliAcredito ter respondido na pergunta acima.

 

Muito Obrigado pela oportunidade e espero não ser inconveniente em meus questionamentos.Oss.

Karate Shotokan (1° Kyu)

 

Perguntas de Gon, Newbie

1ª Pergunta – Ennio Sensei, o que o senhor acha dos introdutores do Karate Shoto-Kan no Brasil (mestre Tanaka, Sasaki, Machida, Takeuchi...)?

EVezzuli: Eles, como outros do Shoto-Kan e de outros estilos, foram os responsáveis pela introdução do Karate competitivo no Brasil.

 

2ª Pergunta – Que impressão teve sobre os treinos no Japão e dos mestres de lá? O nível técnico (em especial de Kumite) é muito diferente do resto do mundo?

EVezzuli: Referindo-me ao “Shidoin-Gueiko”, sim, eram muito superiores na época. Hoje é diferente, o conhecimento se disseminou, o resto do mundo treinou e evoluiu e temos “Karates” muito fortes em várias localidades do mundo, como demonstram os resultados, mesmo que limitadamente, dos campeonatos mundiais de entidades oficiais (WKF) e entidades de estilo (JKA, Wado, Shito, Goju, etc).

 

Perguntas de Nelson Junior, Newbie

1ª Pergunta – Oss, Sensei Ennio, na sua visão o Karate treinado na maioria das academias do Brasil atualmente é igual, tem a mesma força dos anos 70/80? Não somente na forma de treino como na dedicação dos praticantes da Arte? OSS.

EVezzuli: O Brasil é muito grande e, é claro, não conheço a maioria das academias, mas considerando o que tenho visto em campeonatos, cursos e contatos que tenho, o treinamento das academias, hoje, está voltado para as competições, o que limita e distorce o verdadeiro Karate-Do, conforme expus anteriormente.

 

Perguntas de Gustavo-RJ, Hero Member

Pedrão, não resisti.

1ª Pergunta – Qual foi o fator a que o Ennio atribui o fato da equipe de SP nunca ter ganho um brasileiro na década de 70. É inegável a qualidade dos atletas (tendo inclusive títulos individuais), mas por equipe nunca deu certo?

Seriam rixas internas? Má arbitragem? Azar? O RJ com mais opções táticas? Erro em escalações?

Vejam bem, minha pergunta não tem nada de zoação, é apenas uma curiosidade, pois o Karate de SP era excelente.

EVezzuli: Não há desculpas para a derrota, não deve ser justificada. Deve-se procurar entender por que ocorreu, quais foram as causas e tomar atitudes corretivas para evitá-las no futuro, e isto já fizemos. Na década de 80, São Paulo se tornou quase que imbatível, e, pelo que sei, até hoje é o estado com mais títulos obtidos.

Os atletas da equipe do Rio de Janeiro na década de 70 eram excelentes, além de muito leais. Eles mereceram cada vitória que tiveram. Paulo Goes, Ugo Arrigoni, Ronaldo Carlos, Victor Hugo, Flávio Costa, só para citar alguns.

A principal causa por São Paulo nunca ter ganho um Campeonato Brasileiro por equipe na década de 70 (ganhamos o Campeonato Nacional em 1974), no meu entender, foi a falta de treinamento específico para competição.

Na década de 70, por causa da separação do Prof. Okuda do Prof. Sagara, São Paulo, se não me engano, só participou dos Brasileiros por equipe a partir de 1974.

Em 1973, o Prof. Okuda iniciou o Treino de Instrutores da NKK no Brasil. Segundo suas próprias palavras, queria, primeiro, formar Karate-Kas fortes e depois pensaria em campeonatos. Nós íamos para os campeonatos, inclusive nos estaduais, sem treino algum de competição — nunca treinamos “entradas” (o tal do Uchi-Komi), distância, estratégias e táticas de competição. Não que o Prof. Okuda não conhecesse os treinamentos de competição, pois foi competidor e foi da seleção japonesa, além disso, treinamento para competição era matéria do “Shidoin-Gueiko”, mas ele, terminantemente, se recusava a treinar para competição por causa da sua crença. Daí a quantidade de acidentes, desclassificações e derrotas de São Paulo. Isto também acontecia em São Paulo, entre nós, mas aqui a arbitragem era mais tolerante aos acidentes, especialmente nas finais.

As derrotas nos Campeonatos Brasileiros eram muito frustrantes para quem treinava tanto e acredito que tenha sido um dos fatores da separação da equipe do Prof. Okuda no fim da década de 70.

Os primeiros treinos de distância e “ponto”, os treinos de entrada (Uchi-Komi), e algumas táticas e estratégias de competição foram trazidas pelo Ricardo D´Elia quando voltou do Rio onde fora treinar para o Pan-americano com os professores do Rio, exímios conhecedores dos campeonatos e de seus métodos de treinamento.

Depois, em 1976, veio o Prof. Oishi que nos ensinou novos métodos de treino de competição. Mas o Prof. Okuda continuava a relutar em treinar para competição, assim treinávamos sozinhos, entre nós, quase que escondidos dele.

A partir de 1977, como consequência dos treinos de competição São Paulo começou a obter resultados individuais e em equipe nas competições. Primeiramente com o Sasaki como técnico 1978, depois com o D´Elia até 1984, a seguir, comigo, quando assumi como técnico até 1986, posteriormente com o Takashi Shimo e novamente com o D´Elia e outros.

 

1974 00 00 BH MG CampNacional EquKumiteCamp Redim1974, Belo Horizonte, MG - II Campeonato Nacional de Karate - Equipe de São Paulo Campeã Jiu-Kumite por Equipe

 

Perguntas de Alaumir Mainardes, Jr. Member

1ª Pergunta – Sensei Ennio Vezzuli quais são as suas lembranças dos treinamentos com o Sensei Taketoshi Kawamura?

EVezzuli: São ótimas lembranças. Ainda hoje nos encontramos 2 a 3 vezes por ano. O Prof. Kawamura além de ser um excelente Karate-Ka é uma boa pessoa.Já naquela época (década de 1960) ele já estava muito à frente de seu tempo. Foi 4º Grau de Judo, 4º grau de Karate, 2º Grau de Aikido e praticou boxe com o Eder Jofre. Na busca de conhecimento e experiência foi ao Japão onde ficou por 2 anos aperfeiçoando-se.

Apesar de suas habilidades inatas sempre foi humilde, sempre disposto a aprender, nunca se deu ares de “Grande Mestre”, nunca contou vantagens e seu comportamento era e é inspirador.

 

1969 00 00 SP SP Treino 01 Redim4801969, Academia Buei-Kan, Liberdade, São Paulo, SP  - Fila do meio, o primeiro: Ennio Vezzuli. O terceiro; Prof. Taketoshi Kawamura.

 

2014 01 11 SP Br RestShintori ExposIkebanaIkenobo KawamuraEEnnioRedim4802014/01/11, Restaurante Shintori, São Paulo, SP - Exposição de Ikebana da Escola Ikebono. Prof Taketoshi Kawanura e Ennio Vezzuli 

 

Perguntas de Andrews Moura, Newbie

Oss Sensei Ennio Vezzuli: 

1ª Pergunta – O que o Karate acrescentou na sua vida?

EVezzuli: Completou e confirmou a educação que os meus pais me deram.

 

2ª Pergunta – Segundo sua ótica quais os maiores Karate-Kas da história? Se possível cite cinco (5).

EVezzuli: Cinco é muito pouco. Ao longo da entrevista citei vários.

 

3ª Pergunta – Que conselho o senhor poderia dar aos estudantes de Karate da atualidade?

EVezzuli: Aprenda corretamente, Treine muito, Reavalie, Aperfeiçoe, Inove, comece tudo de novo ...

 

4ª Pergunta – Poderia citar um momento marcante na sua trajetória no Karate?

EVezzuli: Foram vários, apresento alguns durante esta entrevista.

 

5ª Pergunta – Oss, Sensei Ennio Vezzuli, com relação ao curso de instrutores no Japão: O que o motivou o senhor a fazer o curso?

EVezzuli: Meu sonho, desde que comecei a treinar Karate, era ir treinar no Japão. Mais tarde, quando fui treinar na NKK do Brasil, ouvi falar no “Treino de Instrutores da NKK da Matriz em Tóquio” o “Shidoin-Gueiko”. Dizia-se que era o melhor do mundo, que poucos aguentavam e até que houvera mortes no treinamento. Aquilo aguçou a minha fantasia e eu ousei pensar que queria ser um dos poucos que aguentaram, ousei querer treinar entre os melhores o mundo e, quem sabe, chegar a algo próximo disto, enfim, tornou-se um desafio.

Após 2 anos treinando na NKK do Brasil, com o Prof. Okuda, fui convidado a participar do “Treino de Instrutores da NKK no Brasil”, curso/treino nos mesmos moldes do “Shidoin-Gueiko” da Matriz da NKK. Participei de 73 a 77 sendo que me formei em julho de 1974.

Por volta de 1975, comentei com o Prof. Okuda da minha intenção de ir treinar no “Shidoin-Gueiko”. Ele tentou me dissuadir alegando que o treino no Brasil era igual diferindo somente na quantidade de instrutores e do ambiente mais opressivo especialmente com os estrangeiros. Que eu teria muitas dificuldades por causa da adaptação, que sofreria muito, etc. Não adiantou, o sonho não me saia da cabeça, eu queria ver como era o original. No fim, vendo minha determinação, me apoiou e ajudou com seus contatos no Japão... e eu fui.

 

CartaConviteDaNKKParaEstagiarNaMatriz Redin4801977, São Paulo, SP - Carta Convite da NKK para Estagiar na Matriz da Nihon Karate Kyokai em Tóquio, Japão

 

 1977 06 00 SP SP PartidaParaJap Redim4801977/06/00, Aeroporto de Congonhas, São Paulo, SP -  Partida para o Japão

 

1977 06 00 To Jap EmFrenteANKK Fialdini Castanho Takagi Redim4801977/06/00, Em frente a NKK, Tóquio, Japão - Da esquerda para a direita: Marco Antônio Fialdini, José Castanho (Presidente da FPK), Takagi (Diretor da NKK), Ennio Vezzuli

 

6ª Pergunta – Quais as maiores dificuldades no mesmo?

EVezzuli: Apresento algumas ao longo da entrevista.

 

7ª Pergunta – Em algum momento o senhor pensou em desistir? Se Sim o que o motivou a continuar?

EVezzuli: Sim, algumas vezes. Nestas ocasiões lembrava-me que participar era a realização de um sonho de muitos anos. Lembrava-me que diziam que o “Shidoin-Gueiko” era muito duro e que poucos aguentavam, especialmente os estrangeiros não aguentavam, desistir seria uma vergonha. Aguentar era uma questão de honra, então me recuperava rapidamente.

Oss.

 

Perguntas de Yama, Hero Member

Oss Ennio V. Sensei

É uma grande honra poder estar me dirigindo ao Sr. 

1ª Pergunta – Quais eram os kihons mais treinados pelos Srs. no tempo que passou no Kenshu-Sei?

EVezzuli: Os Kihons e outras práticas variavam muito. O “Treino de Instrutores” era contínuo, mas dividido ao longo do tempo em ciclos de treinamento, cada um com metas e objetivos próprios. O conteúdo de cada ciclo era projetado de maneira que os vários métodos de treinamento (Kihon, Kata, Kumite e outros), coordenadamente, se completavam e se integravam de forma a atingir os objetivos daquele determinado ciclo e que, aquele também, coordenadamente se integrava aos outros ciclos completando o todo.

 

2ª Pergunta – O período de treinamento é o mesmo que ocorre hoje em dia?

EVezzuli: Na época o treino ocorria diariamente das 12:00 às 14:00, as vezes se estendia um pouco mais. Antes do Campeonato Japonês, ocorria 2 vezes ao dia: de manhã e às 12:00 h. Hoje não sei.

 

3ª Pergunta – O que o Sr. fazia para sobreviver quando esteve por lá?

EVezzuli: Recebia US$ 300,00 (na época era o valor máximo que podia ser enviado do Brasil para o exterior) de um aluno e amigo meu, o Marco Antônio Fialdini, que continuou a dar aula nos locais em que eu dava, mas claro que o dinheiro não era suficiente. Após seis meses de Japão o dinheiro que eu levara acabou, mas logo consegui um emprego de professor de português e de italiano. Dava aulas em alguns horários entre os treinos.

 

4ª Pergunta – O Sr. pode citar algumas lembranças deste período, boas e até as não tão boas?

EVezzuli: A época mais difícil foi no primeiro semestre de 1978 quando o meu dinheiro acabou. Tive que racionar comida e fiquei muito preocupado com a vergonha de ter que voltar ao Brasil e desistir do treino.

Nesta época adoecia com facilidade e me desconcentrava no treino, consequentemente me machuquei muito. Após alguns meses quando pensei que não tinha mais jeito, consegui um trabalho como professor de português e mais tarde também como professor de italiano, o que permitiu a continuidade de minha estada no Japão.

Mesmo após ter iniciado a trabalhar continuei a passar dificuldades, pois passei a ter mais uma despesa com gastos com condução (que na época eram elevados) para ir até o local. A minha confiança no destino estava muito abalada, não sabia se aguentaria o mês que faltava até receber o pagamento. Eu não queria pedir um adiantamento. Surpreendentemente, na sexta feira seguinte, cerca de dez dias do início do trabalho recebi o adiantamento regular da escola (eu não sabia que existia).

Esta é a melhor lembrança que tenho: com o dinheiro na mão, me convenci que não teria que passar pela vergonha de voltar e desistir do treino. Foi um grande alívio. Fiquei muito feliz, quase eufórico.Era uma sexta-feira, fim de tarde, no sábado não tinha treino, imediatamente separei algum dinheiro e fui ao supermercado onde comprei um “monte” de comida. Lembro-me especialmente de umas salsichas muito grossas e das “Kirin Biru” (cerveja Kirin), levei as compras para o meu pequeno quarto de 6 tatamis.

Naquela sexta-feira me lembro inundado de alegria, comi e bebi tanto que minha barriga parecia de uma grávida e quase não conseguia me levantar do tatami para ir ao banheiro. No sábado estava imprestável, mas muito contente. No domingo fui correr para estar desperto para o treino da segunda.

 

5ª Pergunta – Foi fácil sua adaptação com os outros alunos e os Mestres?

EVezzuli: Descrevo o período de adaptação mais adiante em resposta a uma pergunta idêntica.

 

Oss

Alberto

 

Perguntas de Leomju, Newbie

Oss, Sensei Ennio,

1ª Pergunta – Depois de tantos anos de treinamento, após essa caminhada, como o senhor explicaria aos iniciantes que o Karate valeu a pena?Com admiração.

 

Oss!!!

EVezzuli: Valeu muito à pena, mas especificamente, não sei como explicar, pois ele se integrou a minha vida como um todo. Espero que ao longo da entrevista possa ter transmitido aos leitores esta percepção.

 

Perguntas de Arivaldo, Hero Member

Olá Ennio,

1ª Pergunta – Por que “alguns” professores insistem em afirmar que você não concluiu o curso de “Shidoin-Gueiko”? Concluiu ou não?

EVezzuli: Eu treinei no “Shidoin-Gueiko" da matriz da NKK em Tóquio por cerca de 2 anos que é a duração do curso. Naquela época, pelo que eu sei, a NKK não credenciava estrangeiros como Instrutores da Matriz da NKK. Estrangeiros que tivessem os requisitos necessários podiam participar, mas não eram credenciados. Quando fui, eu estava ciente disto, pois fui alertado pelo Prof. Okuda antes de viajar.

Não tenho total certeza, pois nunca me interessei pelo assunto, mas, pelo que sei, os estrangeiros que participaram do “Shidoin-Gueiko” por períodos longos (um ano ou mais), embora tenham sido poucos, nenhum foi credenciado. Assim foi com Wendel, Nigel Jackson, Stan Schimdt, comigo e com o Peté (José Pacheco), bem como aos que se seguiram.

Lembro-me que o Peté, em uma conversa em seu apartamento, sugeriu que pedíssemos ao Prof. Nakayama se poderiam emitir algum certificado. Eu não me interessei, pois já fora credenciado Instrutor no Brasil em 1974. Não falamos mais sobre isto. Logo depois voltei ao Brasil.

 

1974 00 00 SP SP PublicacaoCertificacaoDeInstrutor NKKBrasil Redim4801974, São Paulo, SP - Publicação da Certificação de Instrutor da Nihon Karate Kyokai no Brasil

 

Em 1980, ao me desligar do Prof. Okuda me desliguei também da NKK. 

Parece-me que após a cisão da NKK no fim dos anos 80, início dos 90, houve algumas mudanças: Criaram uma classificação de Instrutores.

2ª Pergunta – Poderia fazer uma comparação com o treino de Kenshu-Sei que fez com o Okuda (Brasil), no Japão e atualmente mudou muito?

EVezzuli: A intensidade física dos treinos era muito semelhante: muito puxadas. O treino no Brasil era mais voltado para o Kihon no Japão mais focado no frente a frente e Kumite e nos períodos pré-campeonato com forte enfoque ao Shiai-Kumite.

A quantidade de participantes no Brasil, em média era de 6 e no Japão cerca de 22 participantes. Além disso, no Japão havia muitos “Senpai” o que no Brasil não havia, pois fomos a primeira turma. Os “Senpai” além de ajudarem a ensinar e corrigir os “Kohai” (são uma espécie de mentores) também são referências tanto em “tipos de Karate” como em conduta. Quanto mais “Senpai” melhor.

Mas o diferencial era mesmo o ambiente. No Japão o ambiente era muito mais tenso e, em certas épocas, hostil. A pressão psicológica era intensa, mas compatível com os objetivos do treino.

Pelo que sei o sistema continua o mesmo.

  

1978 00 00 To Jap ShidoinGueiko01 Redim1978, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Foto Pós Treino Shidoin-Geiko.1a fileira, da Esquerda para a Direita: Yamamoto. Yasuda, José Pacheco - Peté (Portugal), Hiroshi Shoji (o Instrutor do Shidoin-Geiko), Suzuki (Katsumata), Ennio Vezzuli (Brasil), Lau (Visitante do México).
2a fileira: Kurasako, Takahashi, Isaka, Imura, Yahara, Sakata.
3a fileira: Tsuchi, Abe (a 1a mulher a participar do Shidoin-Geiko), Osaka, Kawawada, Kaneko, Masahiko Tanaka.
  

 

1977 00 00 To Jap ForeignTrein02 Redim4801978, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Foto Pós Treino dos Estrangeiros. O primeiro a Esquerda, de pé, Prof Hirokazu Kanazawa. Na fila do meio, agachado, José Pacheco (Portugal) e o sexto na mesma fila Ennio Vezzuli

 

3ª Pergunta – Troquei alguns e-mails com Peté Pacheco (Portugal) seu colega de treino no Japão. Como instrutor formado ele conseguiu implantar um projeto de Karate Shotokan (JKA) em Portugal. E no Brasil por que não deu certo?

EVezzuli: Não sei exatamente, mas acredito que, como não apareceram novos candidatos, o Prof. Okuda não se viu mais estimulado e não teve como prosseguir com o curso.

 

4ª Pergunta – Tem algum projeto (Karate) para o futuro? Poderia falar a respeito?

EVezzuli: Sim, tenho. Veja mais adiante.

 

abs.

Ari – Santos/SP

 

Perguntas de David Mendes, Newbie

1ª Pergunta – Em algum momento o senhor se sentiu discriminado por ser brasileiro?

EVezzuli: Sim, mas foram casos isolados.

 

2ª Pergunta – Durante os treinos pegavam mais pesado por ser estrangeiro?

EVezzuli: Quando estava lá achava que sim, mas a minha percepção foi influenciada, sem dúvidas, pelas dificuldades iniciais de adaptação à um país totalmente diferente.

Todos que entravam (japoneses e estrangeiros) passavam por um período de provação para verificar se realmente aguentariam, se eram merecedores de estarem lá. No 2º ano o tratamento mudava e você passava a ser tratado como “quase gente”.

Muitos estrangeiros, por causa da grande diferença de culturas, não se adaptavam e logo abandonavam o treino ou apresentavam uma conduta inadequada à esperada para tal treino. Assim, os japoneses se precaviam submetendo os estrangeiros a um período maior de observação antes de aceitá-los como merecedores de estarem lá e receberem os ensinamentos.

O rigor a que os Kenshu-Sei era submetidos fazia parte da forja, isso não pode ser confundido com discriminação ou perseguição.

Também se deve considerar que o “Shidoin-Gueiko” é um motivo de orgulho nacional. O que se diz, como você deve saber, é que o treino é muito duro e rigoroso, que poucos aguentam, que estrangeiros não aguentam, etc.

O ambiente era opressivo, o rigor e a pressão física e psicológica era muita e havia períodos que a intensidade era extrema, eram treinos de superação. Mas tudo isto era adequado aos objetivos do treino, tratava-se de formar uma elite do Karate-Do que devia estar preparada para divulgar e ensinar a essência do Karate-Do e também preparar lutadores para as mais diversas situações, inclusive de entrave real.

 

3ª Pergunta – O senhor acha que alguém no Brasil tem capacidade para participar para instrutores Kenshu-Sei?

EVezzuli: Sim. Não faltam Karate-Kas sérios no Brasil.

 

Oss.

 

Perguntas de Carlos Alberto Galvão Rocha – Carlão

Oss!!! Ennio,Aí vão algumas perguntas para a sua entrevista no Karateca.net:1ª Pergunta – Você foi um Senpai super rigoroso e sempre exigiu o máximo do seu Kohai, mas sempre leal e pronto a ensinar tudo que sabia. Você teve um Sempai assim no Japão? Se teve, quem foi?

EVezzuli: Sim, tive orientação do Prof. Isaka e do Prof. Oishi, amigos do Prof. Okuda, mas foi com o Prof. Yahara que tive mais contato. Quase que diariamente, exceto as quartas-feiras, que era seu dia de folga, por cerca de 20 a 30 minutos antes do treino me chamava para o Kumite. Às vezes também após o treino. Lembro-me que se aproximava do “chiqueirinho”, canto da Kyokai onde os Kenshu-Sei ficavam-se aquecendo e a disposição dos “Senpai”, e, circundando os punhos um em volta ao outro, repetia com um ligeiro sorriso a inesquecível e temerosa frase: “Ennio-Kun, choto yarô ka? A frase quer dizer: “Ennio Kohai, vamos fazer um pouco?” e os movimentos dos punhos queria dizer: Kumite. Certamente a minha resposta era: Oss!Foi com ele que aprendi o, então inédito, Ushiro-Mawashi-Gueri.

O Yahara “Sensei” costumava viajar algumas vezes por ano para dar cursos e aulas na Nova Caledônia (ilhas da Oceania) e em outras localidades. Estas viagens, esperadas com ansiedade, eram um alívio para os Kohai.

 

 1978 00 00 To Jap ShidoinGueikoEnnxYahara03 Redim4801978, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Jiu-Kumite antes (e/ou depois) do Shidoin-Geiko. Mikyo Yahara e Ennio Vezzuli 

 

1978 00 00 To Jap ShidoinGueikoEnnxYahara 05 Redim4801978, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Jiu-Kumite antes (e/ou depois) do Shidoin-Geiko. Ennio Vezzuli e Mikyo Yahara 

 

1978 00 00 To Jap ForeignTrein01 Redim4801978, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Treinamento de Makiwara antes do Shidoin-Geiko

 

2ª Pergunta – O que foi mais difícil no Japão, quando da sua chegada. A dificuldade da língua, costumes, solidão, pressão psicológica ou os treinamentos em si. Comente um pouco esta situação?

EVezzuli: Eu fui para o Japão exclusivamente para treinar no “Shidoin-Gueiko” e iniciei assim que cheguei lá, o que não era comum para estrangeiros. O normal, e recomendado, era ir para o Japão, treinar na Hoitsugan-Dojo (academia do Prof. Nakayama), que ficava um quarteirão da matriz da NKK, no treino das 7:00 h e treinar na NKK no treino das 10:00 h, por alguns meses ou até por alguns anos, até se ambientar e “quebrar o gelo” com os “Shidoin” e “Kenshu-Sei”. Após a ambientação, pediam para participar no “Treino de Instrutores” e, se preenchessem os requisitos, eram autorizados. No meu caso a ambientação foi “a frio”, direto no “Treino de Instrutores”, por isso o início foi um pouco difícil, ... bem difícil.

Tive que de imediato e ao mesmo tempo administrar a adaptação: a falta da família e dos amigos, aos costumes, à alimentação, ao clima (pois cheguei no verão, que, em Tóquio, é sufocante: muito quente e úmido, mais que o Rio de Janeiro), ao ambiente opressivo do “Shidoin-Gueiko” e ao rigor com que eram tratados os iniciantes. Também sofria as sequelas da operação que fizera no início do ano que não me dava a confiança total na movimentação.

Quanto à intensidade física do treinamento, não tive problemas, pois era semelhante ao treinamento no Curso de Instrutores da NKK no Brasil, mas me lembro que, durante o primeiro mês, saía do treino exaurido, quase que me arrastando. Ia para um parquinho que ficava atrás da Kyokai, sentava-me num banco e ficava imóvel tal qual um yogi, contemplando o céu, as nuvens, totalmente desligado, por um bom tempo, às vezes por mais de uma hora, até que a “consciência” voltasse e tivesse forças para, então, comer o lanche que levava de casa e continuar o dia.

Por outro lado o Prof. Okuda conseguiu que eu morasse na Hoitsugan de Yokohama, a academia do Prof. Horie (seu Kohai) e do Sr. Hiroshi Tabata (irmão do “Shidoin” Tabata). O Prof. Horie era um “Shidoin” que já não treinava no “Shidoin-Gueiko”. Morei na Hoitsugan de Yokohama por 7 meses, e praticamente todas as noites após o treino em que eu ajudava a dar aula, me levava para jantar e, às vezes, me embebedar. Durante a minha estada no Japão não mediu esforços para me ambientar e ajudar.

 

1977 00 00 Yokoha Jap Hoitsugan04 Redim4801977, Hoitsugan Dojo, Yokohama, Japão - Da esquerda para a direita a partir do 3o: Tabata (o irmão mais velho), Horie, Ennio Vezzuli

 

1977 00 00 Yokoha Jap Hoitsugan015 Redim4801977, Hoitsugan Dojo, Yokohama, Japão - Comemoração. Da Esquerda para a direita Tabataa partir do 3o: Tabata (o irmão mais velho), Horie e na extrema direita Ennio Vezzuli

 

Além disso, iniciou comigo, no “Shidon Gueiko”, o português José Pacheco, o “Peté”, uma pessoa incrívelmente boa de quem me tornei amigo e muito me ajudou em toda minha jornada japonesa.

 

 1978 00 00 To Jap NKK PeteEEnnio Redi4801978, Vestiario da Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Após o Shidoin-Geiko: José Pacheco (Peté) e Ennio Vezzuli

 

Havia também o Ricardo Carvalho que treinava na Takudai. Ele me orientou quanto aos costumes e convivência com os “Senpai” o que amenizou muito a minha adaptação. Algumas vezes, após o treino eu ia até a Takudai, assistia ao treino e depois íamos nos embebedar, desabafar e cada um falar mal dos seus “Sempai”.

 

1977 06 00 To Jp CampMundRicardoCarvalhoEEnnioVezzuli Redim4801977, Ginásio Nihon Budo-Kan, Tóquio, Japão - 2o Campeonato Mundial IAKF. Ricardo Carvalho e Ennio Vezzuli

 

Tive também outros dois amigos que me apoiaram com sua amizade: o Takahashi Osamu, um aluno do Prof. Horie, que nos fins de semana vinha me buscar na academia para que eu não ficasse só e o “Tchisai” Mori (pequeno Mori), como o chama o Yahara “Sensei” para diferenciá-lo do “Oki” Mori, grande Mori, que era “Shidoin” da NKK), um “Sempai” da Komazawa Dai Gaku e “Kohai” do Prof. Oishi, que sempre me procurava para sairmos ou para saber se eu estava bem. Coincidentemente, depois fiquei sabendo que o pequeno Mori competiu na época de estudante com o Prof. Yahara e se tornaram amigos muito próximos, talvez tenha sido o motivo do tratamento especial que recebia do o Yahara “Sensei” (Tratamento similar ao dispensado a um saco de pancadas).

 

1978 00 00 To Apartamento Festa EnnioETakahashi 01 Redim4801978, Apartamento do Ennio, Hioshi Honcho, Kanagawa, Japão - Comemoração, Ennio Vezzuli e Takahashi Osamu

 

As purezas destas amizades, por si só, teriam feito valer a minha estada no Japão.

 

3ª Pergunta – Qual a sua melhor lembrança desta época e qual a pior?

EVezzuli: Hoje tudo valeu à pena, embora, na época, não parecesse assim. Abaixo cito algumas.

As ruins, com o tempo perderam importância e hoje até parecem boas. O saldo final é muito positivo.

Uma boa, e engraçada, lembrança (para quem tinha tão pouco lazer e com a autoestima abalada por causa da pressão do treino:Em agosto, como já disse, o clima é muito quente e úmido, quase insuportável e é o período de férias de verão no Japão. Também há férias para os “Shidoin”. Metade dos “Shidoin” tiram as duas primeiras semanas de férias em agosto e a outra metade, nas duas últimas semanas. Se não me engano os “Kenshu-Sei” não tinham férias, pelo menos eu e o Peté não tínhamos. Nesta época geralmente o treino era livre, quer dizer, você ficava treinando sozinho ou em pequenos grupos conforme as necessidades de cada um e, é claro, a disposição dos “Senpai”, que, não tardava, vinham te chamar para o Kumite. Nós até tentávamos fazer o Kumite entre nós para ver se os “Senpai”, nos vendo ocupados, desistiam de nos chamar, mas não adiantava, eles simplesmente interrompiam nossa luta e nos chamavam para lutar com eles.

Um belo dia de agosto de 1978, o Prof. Isaka, não sei ao certo, mas acho que foi para nos testar, convidou a mim e ao Peté para sairmos para beber à noite. O tal do “hashi go”, ou como nós o conhecemos no Brasil, o “de bar em bar”. No horário combinado, ainda claro, cerca das sete horas da noite eu e o Peté estávamos lá. Além do Isaka e nós, havia outros “Shidoin” e “Kenshu-Sei”, creio que o Kurasako, o Kawawada, o Suzuki, etc. Fomos para Shinjuku, um bairro boêmio de Tóquio. A partir de então me lembro de bem pouca coisa, mas ficou claro que o objetivo era nos embebedar, pois além de nos obrigar a “virar” a toda a hora, misturaram bebidas tais como cerveja, uísque, sochu (destilado de batata), saque, etc. Sei que passamos em uma infinidade de bares, e vomitei em vários banheiros diferentes, até que, por volta das 5:00 h da manhã, tudo acabou, com todos bêbados. Nunca nos passou pela cabeça faltar no treino do dia seguinte, mas esperávamos que, como era período de férias e por aquela noite ter sido de trégua entre nós e os “Shidoin”, representados ali pelo Prof. Isaka, e considerando o estado deplorável que nos encontrávamos, inclusive ele, nos dispensasse. Para nosso desencanto se despediu dizendo que “nos encontraríamos mais tarde no treino”.

Como eu morava em Yokohama, dormi na casa do Peté e, por volta das 9:00 horas, já estávamos acordados e nos encaminhamos ainda bêbados para o Treino. O Prof. Isaka não apareceu, nem os outros “Shidoin” e “Kenshu-Sei’, mas eu e Peté estávamos lá, bêbados contidos, mas estávamos lá e treinamos. Por sorte o treino naquele dia foi leve e havia poucos “Shidoin”. No fim do treino eu e o Peté cantávamos vitória um para o outro, dizíamos que eles não eram de nada, que nós sim, os estrangeiros, éramos mais homens que eles e um monte de bravatas. Embora falássemos em tom de brincadeira, para nós foi uma grande vitória.

No dia seguinte quando vimos o Prof. Isaka e os outros que estiveram na bebedeira e não foram no treino, eu e Peté rindo, falamos entre nós, bem baixo, simulando a expressão e voz de bronca dos “Shidoin” e sem que ninguém nos visse: Aí em seus “cabrões” (como o Peté costumava dizer), por que não vieram treinar ontem? Hein?!

Quando nos viu, o Prof. Isaka nos cumprimentou como sempre e como todo “Shidoin” cumprimenta os “Kenshu-Sei”: de cima de seu salto alto. Mais tarde ficamos mais felizes ainda por termos decidido ir treinar no dia anterior, pois soubemos que ele perguntara aos outros “Shidoin” se nós tínhamos comparecido no treino do dia anterior.

Outras boas lembranças foram dos meus últimos dias em Tóquio.

Cerca de 2 semanas antes da minha partida, quando já tinha comunicado à Kyokai que deveria voltar ao Brasil, pouco antes do treino o Prof. Yahara, se aproximou de mim e, surpreendentemente ao invés de me “convidar” para o costumeiro Kumite, me convidou para um almoço com ele no sábado seguinte e, em seguida, me perguntou quais eram as medidas de meu kimono e da minha faixa, pois queria dá-los de presente para mim (acho que para compensar os que ele me rasgou durante os Kumite). Perguntou-me também como queria o kimono. Disse-lhe que gostava do kimono igual ao dele (casaco mais longo e calça e mangas mais curtas), ele ficou surpreso e acho que até envaidecido, pois na época era só ele que usava aquele corte de kimono que hoje se tornou comum. Em seguida, quando eu já estava certo de que escapara, ele me fez o seu “convite compulsório” para o kumite.No sábado seguinte fui ao seu encontro para almoçar, estava presente também o pequeno Mori, seu amigo e “Sempai” da Komazawa Dai-Gaku, conversamos muito, o que era incomum entre “Senpai” e “Kohai”, se despediu e me desejou sorte.

No dia anterior a minha despedida o Prof. Nakayama ligou para a Kyokai para que me comunicassem para que eu fosse, após o treino, até seu apartamento. Fiquei um pouco apreensivo, mas ao chegar lá me recebeu encantadoramente bem, conversou um pouco comigo e me presenteou com os três primeiros volumes, até então publicados, da série “Best Karate”, todos com uma dedicatória e autógrafo seu. Se despediu e me desejou boa sorte.

 

1979 00 00 To Jap LivrosPresenteados Pelo ProfNakayama Redim4801979, Dedicatoria do Prof. Nakayama nos livros presenteados a Ennio Vezzuli por ocasião da despedida e volta para o Brasil 

 

No dia seguinte, no último treino no “Shidoin-Gueiko”, me fizeram uma festa de despedida. O treino foi um pouco mais curto, alguns “Kenshu-Sei” não treinaram, pois preparavam um “Yossenabe” (cozido de carne e legumes). Após o treino, ainda de kimono, comemos no chão do dojo no estilo japonês. O ambiente contrastava com o do dia a dia do treino, todos estavam alegres, tiramos fotos e cada um se despediu de mim, com quase sorrisos. Foi um momento alegre, mas me senti também muito triste em partir.

 

1979 00 00 To Jap ShidoinGueikoFestDesp01 Redim4801979, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Festa de despedida de Ennio Vezzuli após o seu último treino. Da esquerda para a direita: Masahiko Tanaka, Takeshi Oishi, Abe (a primeira mulher a participar do Shidoin Geiko), Ennio Vezzuli, Prof. Nakayama, Takagi (Diretor da NKK) e Keigo Abe (Shidoin)

 

1979 00 00 To Jap ShidoinGueikoFestDesp02 Redim4801979, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Festa de despedida de Ennio Vezzuli após o seu último treino. Da esquerda para a direita: No sentido horário: Isaka (de costas), Mabuni (foi aluno do Prof. Funakoshi), Tanaka, Oishi, Ennio Vezzuli servindo o Prof. Nakayama, Takagi, Abe, Yahara, 2 Funcionários da NKK

 

1979 00 00 To Jap ShidoinGueikoFestDesp04 Redim4801979, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Festa de despedida de Ennio Vezzuli após o seu último treino. Da esquerda para a direita: Yahara, Kawawada, Omura, Ennio Vezzuli, Imura, Kurasako, Isaka e Mabuni

 

1979 00 00 To Jap ShidoinGueikoFestDesp05 Redim4801979, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Festa de despedida de Ennio Vezzuli após o seu último treino. Da esquerda para a direita Hiroshi Shoji (o Instrutor do Shidoin-Geiko), José Pacheco (Peté), Ennio Vezzuli, Suzuki (Katsumata) e Fukami

 

Um momento ruim:

Quando parti para o Japão planejava ficar fora por 3 anos, mais tarde mudei para ficar 2 anos no “Shidoin-Gueiko” e um ano para dar a volta ao mundo em meu retorno, mais tarde pensei em ficar indefinidamente e depois, influenciado por um amigo australiano, planejei após o campeonato Japonês de 1979, juntar algum dinheiro e dar a volta ao mundo e me estabelecer na Austrália.

No início de 1979, como acontecera no ano anterior consegui me classificar para a seleção de Tóquio que disputaria o Campeonato Japonês de províncias e também para o individual dos profissionais. Estava melhor preparado do que o ano anterior e acreditava que poderia ter uma boa classificação.

Cerca de um mês antes do Campeonato Japonês, infelizmente, o meningioma de minha mãe, que tinha extirpado antes de eu viajar, voltou e eu tive que voltar para ajudar a cuidar dela, pois no Brasil éramos somente minha mãe, minha irmã e meu pai que, como executivo de uma multinacional, naquela época, prestava consultoria no Chile retornando somente a cada 3 semanas e permanecendo 3 dias no Brasil.

 

1978 00 00 To Jap 21oCampJapEnnioxTsuchi02 Redim4801978, Ginásio Nihon Budo-Kan, Tóquio, Japão - 21o Campeonato Japonês, Divisão Profissionais, Individual, Ennio Vezzuli versus Tsuchi

 

 1978 00 00 To Jap CampJap EquipHoitsugan01 Redim4801978, Ginásio Nihon Budo-Kan, Tóquio, Japão - 21o Campeonato Japonês, Divisão Academias, por Equipe, Ennio Vezzuli versus Desconhecido

 

1978 00 00 To Jap CampJap EquipHoitsugan11 Redim4801978, Ginásio Nihon Budo-Kan, Tóquio, Japão - 21o Campeonato Japonês, Divisão Academias, por Equipe, Desconhecido versus Ennio Vezzuli

 

4ª Pergunta – O que de mais valioso você aprendeu no Japão? O que de mais valioso você aprendeu no Karate?

EVezzuli: Foi uma experiência de vida incrível e espero tê-la transmitido, mesmo que parcialmente, nesta entrevista.

Em termos técnicos e métodos de treinamento, aprendi muito, sobretudo pela quantidade de “Senpai” no “Shidoin-Gueiko” e cada um com características próprias. Observá-los, treinar e lutar com eles, por si só foi uma pós-graduação. A diversidade e o refinamento do treino, somente possível com tal quantidade e qualidade de participantes, foi outra.

 

5ª Pergunta – A seu ver tecnicamente a JKA do Japão ainda é a melhor escola Shoto-Kan do mundo?

EVezzuli: A meu ver, apesar de suas falhas, política e administração equivocadas, confusas e até desastradas, ainda é uma grande escola, mas não sei se a melhor. Muitos países evoluíram muito, e mantém programas nacionais tanto particulares quanto financiados pelo governo, mas a NKK tem uma forte tradição no ensino e prática do Karate-Do.

O grande diferencial da NKK foi a profissionalização. Iniciada na década de 50, com tempo integral dedicado ao Karate-Do, puderam estudá-lo e aperfeiçoá-lo. Sistematizaram e regulamentaram a conduta, a prática e o ensino, melhoraram as competições e, principalmente, formaram instrutores fortes e capacitados para ensinar o Karate-Do. Outro ponto importante é a valorização do treinamento, a cultura é de que “Karate-Do é para a vida toda”, “se não dá para treinar não dá para ensinar”, enfim, pouca conversa e muito treino.

 

1979 00 00 To Jap ShidoinGueikoFestDesp03 Redim4801979, Matriz da Nihon Karate Kyokai, Tóquio, Japão - Festa de despedida de Ennio Vezzuli após o seu último treino. Foto do Kami-Dana da área de treinamento

 

6ª Pergunta – Podemos criar um Karate brasileiro comparável às melhores escolas japonesas?

EVezzuli: Sim, este é o meu objetivo agora. Estou desenvolvendo um projeto que tem o objetivo (e a pretensão) de melhorar o Karate-Do nacional e alcançar um nível de excelência. A parte mais importante dele é preparar Instrutores com competência para ministrar a essência do Karate-Do por meio de um “Curso para a Formação de Instrutores” que será ministrado inicialmente por meio da Federação Paulista de Karate (FPK) e terá as seguintes características:

. O objetivo não é ensinar um estilo, é ensinar a ensinar, a estabelecer um método de ensino e treinamento dentro das tradições do próprio estilo;. Início do 1º Curso: Agosto/2011;. Módulos: 1 Tradição e Didática (Como Ensinar); 2. Kihon; 3. Kumite; 4. Kata; 5: Competição; 6: Exames de Kyus e Dans; 7 Defesa Pessoal; 8. Outros;. Duração: 12 meses;. Uma aula por mês, no sábado, com “Aula Teórica e Prática” de manhã e “Treino Intensivo” à tarde;. Matéria para treinamento no período entre as aulas/treinos;. Requisitos mínimos: Faixa Preta 1º Grau, escolaridade 2º grau incompleto, 18 anos;. Aberto a qualquer estilo ou grupo ou indivíduo filiados a FPK ou não filiado, inclusive filiados a outras federações e provenientes de qualquer estado;. Haverá provas e exame final;. Se aprovado o Candidato receberá Certificado de Nível 1 – (total de 4 níveis).

Mais informações poderão ser obtidas a partir de 18/07/2011 na FPK pelo telefone (11) 3887-6493, (11) 3887-7486, (11) 3887-9880 ou e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

A CBK (Confederação Brasileira de Karate) demonstrou grande interesse em aplicá-lo e os trabalhos e negociação já estão em andamento, mas acredito que sua participação será mais de chancelaria e reconhecimento em seu âmbito de atuação.

Apesar de ser uma iniciativa fundamental para melhorarmos a qualidade do Karate-Do nacional, não é suficiente. É necessário manter os instrutores unidos, atualizados, treinados e motivados. Para tanto, até o fim do ano/início do próximo temos a intenção de criar:

1. “Treino de Instrutores” permanente com periodicidade mensal e, posteriormente, ...

2. ...um “Shidoin Kai” (Associação de Instrutores) com o objetivo de:

2.1. Atualizações técnicas e comportamentais (ética, moral e auto aperfeiçoamento);

2.2. Treino mensal intensivo incutindo a mentalidade do “se não dá para treinar, não dá para ensinar” e “Karate-Do é para a vida toda”;

2.3. Troca de conhecimento e experiências entre Instrutores;

2.4. Disponibilizar o conhecimento gerado para alunos e demais praticantes;3. Gashuku, Cursos e outros eventos relacionados com o ensino e prática do Karate-Do.

Também devemos desvincular a prática do Karate-Do da política. Apesar desta última ser inerente e necessária ao ser humano, ela não pode atrapalhar ou desmotivar o ensino e prática do Karate-Do.

Assim, mesmo que possam funcionar dentro ou patrocinado por alguma federação ou confederação, tanto o “Treino de Instrutores” quanto o “Shidoin Kai” se dedicará exclusivamente ao estudo, ensino e principalmente à prática do Karate-Do e deverá ser desprovido de qualquer interesse ou influência política delas e/ou de outros indivíduos e/ou grupos políticos.

Carlão, sei que o projeto é ambicioso, mas, no meu entender, precisa ser feito, e espero a tua participação e ajuda bem como de todo e qualquer Karate-Ka sério deste país, independente de, como já disse, federação, estilo ou grupo.

 

7ª Pergunta – De que forma você acha que ainda pode contribuir para o Karate brasileiro. Quais seus planos para isso?

EVezzuli: Estou ministrando Cursos e Aulas, a quem se interessar, sobre os variados temas do Karate-Do, mas o meu projeto principal é o exposto na pergunta anterior.

Quanto ao “Curso de Instrutores”, o primeiro curso foi adotado pela FPK, que o promoverá todos os anos, mas quaisquer federações, confederações, estilos ou grupos poderão solicitá-lo. Duas ou mais federações ou grupos de estados próximos poderão, por meio de sua Confederação ou não, se unir em um “pool” e se cotizarem para contratar o curso em local conveniente e próximo a todos dividindo e minimizando custos. Neste caso o curso poderá ser reduzido em sua duração para 6 meses, mas não na carga horária, optando-se pelas Aulas/Treinos uma vez por mês ministrados aos sábados e domingos. Mais informações poderão ser obtidas pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

 

8ª Pergunta – Ennio, vou parar de te encher o saco. Tenho a felicidade de poder fazer perguntas a você todos os dias e ainda treinarmos juntos.

EVezzuli: Eu é que tenho a felicidade de ter um amigo (para trocar confidências), e Karate-Ka hábil e sério (para trocar figurinhas) como você.

 

Abração do seu amigo e kohai,

Carlão

 

Perguntas de Pedro Campana Netto

1ª Pergunta – Como era o Treino de Instrutores no Brasil?

EVezzuli: O Prof. Okuda como único Instrutor formado da NKK e responsável pela organização no Brasil, instituiu o treino de Instrutores da NKK no Brasil em 1973. Os convocados, 8 ou 9 no total, fizeram uma seletiva em um sábado. Iniciou-se às 9:00 e foi até o fim da tarde, cerca das 17:00. A seletiva ou exame de capacitação constituiu-se de entrevista, conhecimentos de Karate e... Jiu-Kumite, não me lembro quantas lutas foram ao todo, mas parecia que nunca iria acabar.

Na verdade, não foi uma seletiva, pois todos já eram Karate-Kas de destaque, foi mais uma iniciação, uma demonstração do que estava por vir.Todos foram aprovados.

Curso foi do tipo “pouca conversa e muita ação (treino)” e iniciou-se na semana seguinte. Basicamente o treino consistia em:

1. Treino diário (segunda a sexta) na parte da manhã das 10:00 h às 12:00 h ou mais – Era um treinamento intenso, exaustivo, de grande pressão física e psicológica. Também tínhamos análise de técnicas, aplicações, etc;

2. Aprender a ensinar (didática) de segunda a sábado nos períodos da tarde e noite – Acompanhávamos o(s) Professor(es) nas Aulas ensinando os Iniciantes na matriz ou em outros locais para outros grupos ou entidades. Quando não havia Iniciantes ou havia muitos “Kenshu-Sei”, alguns de nós treinavam enquanto outros ajudavam no treino;

3. Treinamento de Árbitros – Realizado em treinos próprios para tal fim e na participação como árbitros em campeonatos nas categorias em que não competíamos;

4. Treinamento de Examinadores de “Kyus” e “Dans” – Realizados nos próprios exames — Lutando com os examinados, organizando e administrando o evento, atuando como examinadores auxiliares e, quando aptos, como examinadores oficiais;

5. Realizar Campeonatos – Desde as etapas de planejamento e execução ao pós-campeonato: conseguir patrocínios, reservar o ginásio, preparar o local, fazer as revistas e cartazes do campeonato, enviar convites, comprar os troféus, pagar as contas, confeccionar as chaves, demarcar o “koto” de competição, competir, atuar como árbitros das categorias nas quais não participávamos, etc;

6. Fazer serviços burocráticos, entre outros, da matriz ou para o Prof. Okuda.

O horário do treino era inconveniente e o treino era exaustivo o que conflitava com o horário das atividades de muitos Kenshu-Sei que estudavam e/ou trabalhavam. Por conta disso, eu mesmo tive que abandonar a Faculdade de Engenharia para poder continuar treinando. Após alguns meses, restaram apenas o Ricardo D´Elia, o Gomes, eu e o Pedro Okuyama que vinha de Ribeirão Preto nas segundas-feiras.

Alguns meses depois vieram da Bahia o Djalma Caribé e o Júlio Gusmões que retornaram à Bahia alguns meses depois.

Mais tarde o Carlão (Carlos Alberto Galvão Rocha) começou a se destacar e foi convidado a participar.

O Treino teve a duração de 2 anos, mas aproveitando a vinda do Prof. Isaka, “Shidoin” da NKK em Tóquio, o Prof. Okuda antecipou o exame. Em 13/07/1974, fizemos o exame, apresentamos a tese e, os 4 candidatos remanescentes originais — Ricardo D´Elia, Gomes, Pedro Okuyama e eu — foram aprovados e promovidos a Instrutores da NKK no Brasil.

Após a aprovação e cumprimento dos dois anos do curso, a maioria continuou treinando no Treino de Instrutores e ajudando os novos Kenshu-Sei.O treino continuou até 1977 quando foi reduzido a somente duas vezes por semana até que, mais tarde, por falta de candidatos, acredito eu, foi extinto (eu já tinha ido para o Japão).

Em junho de 1977 fui estagiar no “Shidoin–Gueiko” da Matriz da NKK em Tóquio onde permaneci até maio de 1979.

 

2ª Pergunta – Ennio, quando você se desligou do Sensei Okuda, passou a comandar a Associação Augusta de Karate. Fale um pouco sobre ela, desde a Augusta até a R. José Maria Whitacker.

EVezzuli: Já no Japão planejara não viver do Karate-Do. Já tinha realizado meu sonho. Pensava em continuar a treinar desenvolvendo o que aprendera e ajudar o Prof. Okuda a dar aulas. Mas as coisas não deram certo.

Por volta de julho de 1979 o Prof. Castanho, dono da Ass. Augusta de Karate, me cedeu um horário para que eu treinasse com uns poucos alunos da época pré Japão. Era só um treino, mas na Augusta havia muitos horários e vários professores. Alguns alunos souberam do treino e me procuraram pedindo para participar. Após o consentimento de seus professores permiti que treinassem. Cerca de um ano depois o Prof. Castanho, que era dono de um dos maiores escritórios de engenharia do Brasil, o Escritório Figueiredo Ferraz, por motivos profissionais se afastou da Augusta deixando-a a meus cuidados. Em seguida, por razões econômicas, como você sabe, pois você já estava treinando comigo e ajudou na montagem da nova academia, mudamos para a R. José Maria Whitacker.

 

 1980 00 00 SP SP CampPaul AugustaCampea 01 Redim4801980, Ginásio Mauro Pinheiro, São Paulo, SP - Campeonato Paulista. As 3 Equipes da Ass Augusta de Karate. Campeãs por equipe de Kumite e Kata, 3o lugar em Kata

 

3ª Pergunta – Fale também do “Curso de Profissionais para Amadores” que fazíamos lá e o seu resultado. 

EVezzuli: O treino se iniciara sem pretensões, só para que eu e meus alunos nos mantivéssemos treinando. Posteriormente com a adesão dos alunos de outros professores da Augusta começou a ganhar vulto. Após cerca de 2 meses tínhamos cerca de 20 praticantes e até alguns professores aderiram ao treino.Ante o entusiasmo dos participantes decidi transformá-lo em um treino diário e passou a ser realizado das 12:00 às 13:30 h, aproveitando o horário de almoço dos alunos cuja maioria trabalhavam na região da Paulista, outros, como você, vinham de mais longe. Era, como você disse, um “Treino Profissional para Amadores”, pois eles treinavam muito, mas não viviam do Karate.

Naquele ano aquela turma ganhou o Campeonato de Paulista de Novos, também ganhou em quase todas as categorias do primeiro campeonato por categorias de pesos realizadas no estado de São Paulo.

No ano seguinte aquela turma participou no Campeonato Paulista com três equipes (Augusta, Ipê e Paulistano) e ganhou o 1º e 3º colocados em “Shiai-Kumite” e 1º e 2º lugar em “Kata”. Naquele mesmo ano o “Tigrão”, que treinava no “Treino Profissional para Amadores” foi Campeão Brasileiro absoluto.O pessoal continuou a ganhar campeonatos, mas em 1981 eu decidi que nos afastaríamos dos campeonatos para que eu pudesse ensinar e treinar o que considero o “Karate-Do” (mais que competição).

Como você sabe a Augusta não tinha fins lucrativos, e todo o dinheiro ia para a poupança, mas a década de 90 foi muito difícil economicamente falando. Tivemos o sequestro da poupança no Plano Color, Plano Real etc. As dificuldades também atingiram a Meikyo, minha empresa, e tive que me dedicar mais a ela. O treino do meio dia continuava (era gratuito), mas eu não podia dar mais que uma aula à noite e, é claro, a arrecadação não era suficiente para pagar as despesas. Em 1994 começamos a “invadir” o dinheiro da nossa poupança até que acabou. Banquei por mais alguns meses e em 1996 fechei a Augusta.

Continuei a treinar sozinho na Meikyo, onde tinha um bom espaço e de vez em quando alguns ex-alunos e amigos, como você, vinham treinar comigo.

 

4ª Pergunta – Sabemos que temos no Karate-Do uma luta arte para a vida toda. Assim sendo, os “Karate-Kas” da “Velha Guarda” que ainda treinam, acrescentam o que para a Arte como também para eles?

EVezzuli: Sim, é para a vida toda! Para nós da “Velha Guarda” acrescenta o que sempre acrescentou: os benefícios da saúde física e mental, além de, ensinando, cumprir a maior missão: estender estes benefícios às outras pessoas, ajudando-as a se tornarem melhores.

No meu entender nós devemos ser os guardiões do “Karate-Do”. É nossa responsabilidade, em primeiro lugar treinar para preservar a essência do “Karate-Do” e em segundo, ensiná-lo corretamente para as novas gerações, não permitindo que se distorça, conforme citei ao longo da entrevista.

 

5ª Pergunta – Para nós da Mushin é uma honra tê-lo conosco. Como você sente e vê nosso desenvolvimento e nossa conduta?

EVezzuli: Eu é que agradeço a acolhida. O Carlão, com a tua ajuda, não faz nada diferente do que sabe e sempre fez: praticar e ensinar um “Karate-Do” de primeira linha, tradicional no que ele (o “Karate-do”) tem de bom e ao mesmo tempo se preocupa com a inovação.

 

 1981 00 00 SP SP AssAugustaDeKarate EnnioVezzuli PedroCampanaNeto Redim4801981, Ass Augusta de Karate, São Paulo, SP - Cartão Comercial da Associação: Ennio Vezzuli e Pedro Campana Neto

 

4. Agradecimentos de Pedro Campana Neto

Em nome de todos os amigos do Karateca.net agradeço a tua disposição de contar um pouco da história do Karate no Brasil da qual você é participou e espero convicto que a reunião de Amigos da “Velha Guarda” que hoje temos novamente, perdure por muitos anos.

Pedro Campana Netto

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